Especialistas em aconselhamento familiar têm observado um fenômeno relacional descrito como “crise silenciosa” em casamentos. A situação se caracteriza pela ausência de conflitos aparentes, que é substituída por um distanciamento emocional profundo, onde o convívio perde intimidade, diálogo e presença genuína.
O pastor Alberto Kenji, da Igreja Batista Nova Vida em São Caetano do Sul (SP), descreve a dinâmica: “Há casamentos cristãos onde não há briga, não há discussão, não há absolutamente nada, mas o casal está convivendo em silêncio.”
“Um silêncio ensurdecedor. Não há violência doméstica, mas os dois caminham de forma indiferente”, destacou, informou a Comunhão. Segundo ele, esse cenário frequentemente gera um sentimento de solidão acompanhado de culpa, principalmente em ambientes religiosos onde a falta de escândalos pode ocultar problemas.
O pastor Edson de Faria alerta para um erro comum de interpretação. “Silêncio não significa que está tudo bem. A ausência de brigas também não significa harmonia. Muitos casais frequentam a igreja, dizem que está tudo bem, mas na realidade não está. É só uma imagem”, afirma.
Ele aponta que as raízes desse silêncio prolongado geralmente estão em ressentimentos não resolvidos, medo de dialogar para evitar confrontos, concentração nos defeitos do parceiro e a substituição da interação real pelo uso excessivo de dispositivos digitais e redes sociais.
Do ponto de vista teológico, os líderes lembram que a Bíblia não apresenta o silêncio emocional como uma virtude. Citando Efésios 4:26, que orienta a não deixar o sol se por sobre a ira, eles destacam que o texto pressupõe o enfrentamento e a resolução dos desentendimentos, e não sua supressão. “O silêncio não é paz. O silêncio começa a fazer barulho. A pessoa fica quieta, mas o coração e a mente estão sofrendo”, complementa o pastor Edson.
O pastor Silvio Martinez identifica o cerne da questão na deterioração da comunicação. “O nome da resposta é diálogo. Conversa franca, verdadeira. Quando um fala, o outro precisa ouvir de verdade. O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença”, define. Essa indiferença, explicam, é construída por um afastamento progressivo e cotidiano.
O risco principal, na visão do pastor Alberto Kenji, é que o silêncio prolongado leve a uma desistência interna do relacionamento. “Quando não há mais discussão, pode ser sinal de que alguém já abriu mão. Estão separados, mas morando na mesma casa. Deixaram de ser uma só carne”, observa.
Para a reconstrução do vínculo, os conselheiros enfatizam o amor como uma decisão prática, além de um sentimento. “O amor não é só sentimento, é ação. Fé sem obras é morta. Se eu digo que amo, eu preciso provar com atitudes”, afirma Edson de Faria. Isso requer iniciativa individual. “Tem solução, sim. Mas alguém precisa dar o primeiro passo. Se você esperar o outro mudar, nada acontece. Sempre começa por um”, destaca.
Entre as ações sugeridas estão retomar conversas significativas, aumentar os elogios, reduzir as críticas, reservar tempo de qualidade e abordar temas difíceis sem hostilidade. “O diálogo mina o silêncio. Elogiar mais, criticar menos. Colocar as coisas boas à frente das ruins”, reforça Silvio Martinez. O pastor Silvio de Oliveira ressalta a importância do timing: “O casamento não é um dia, é um processo. O diálogo precisa ter momento certo, sem cabeça quente”.
A reflexão final apresentada pelos pastores convida a um exame prático do investimento no relacionamento. “Tem que voltar ao primeiro amor. Não importa o tempo de casado. A pergunta é: o que eu estou fazendo hoje pelo meu casamento?”, provoca Edson de Faria. O processo de restauração, concluem, inicia quando o silêncio deixa de ser um refúgio e passa a ser reconhecido como um pedido por escuta e reconexão.









































