A polícia no norte de Cartum, capital do Sudão, interrompeu um culto fúnebre e prendeu cinco cristãos sul-sudaneses, entre eles o pastor Peter Perpeny, da Igreja Presbiteriana do Sudão. O caso ocorreu na área de El-Haj Yousif, no distrito de East Nile, segundo informou um líder da igreja local.
Os cristãos foram detidos sob a justificativa de estarem em situação migratória irregular, mas, de acordo com o líder religioso, não receberam acusações formais nem informações sobre deportação. Desde o início de agosto, autoridades em regiões afetadas pela guerra civil iniciaram a detenção e possível deportação de estrangeiros, especialmente cidadãos do Sudão do Sul e da Etiópia.
“De fato, há um medo crescente entre os cristãos sul-sudaneses, então eles permanecem em casa para evitar serem presos”, declarou um líder da igreja, que pediu para não ter o nome divulgado por razões de segurança. Os cinco detidos foram levados para a Prisão de Omdurman, onde a polícia informou a uma das mulheres presas que deveria pagar 600.000 libras sudanesas (cerca de US$ 995) ou ficaria seis meses detida. A cobrança foi classificada por líderes locais como uma forma de suborno.
Extremistas muçulmanos utilizaram redes sociais para pedir a prisão de cristãos sul-sudaneses. A área onde ocorreram as detenções é dominada pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), grupo paramilitar em conflito com as Forças Armadas Sudanesas (SAF) desde 15 de abril de 2023. Ambos os lados já atacaram igrejas e locais de culto, conforme relatos de organizações cristãs.
Contexto do conflito
O Sudão vive uma guerra civil desde abril de 2023, após o rompimento entre o general Abdelfattah al-Burhan, das SAF, e Mohamed Hamdan Dagalo, líder das RSF. Ambos haviam dividido o poder militar após o golpe de 25 de outubro de 2021, que derrubou o governo civil de transição iniciado após a queda de Omar al-Bashir, em abril de 2019.
Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o conflito já deixou dezenas de milhares de mortos e mais de 11,9 milhões de deslocados dentro e fora do país. O impasse surgiu quando Burhan tentou colocar a RSF sob controle do exército em dois anos, enquanto Dagalo defendia um prazo de pelo menos dez anos.
As RSF têm raízes nas milícias Janjaweed, que atuaram na repressão a rebeldes em Darfur sob o governo de Bashir. Apesar das origens islâmicas de ambos os líderes, eles buscam se apresentar à comunidade internacional como defensores de uma futura transição democrática.
Perseguição religiosa
De acordo com o relatório Lista Mundial da Perseguição 2025, publicado pela organização Portas Abertas, o Sudão ocupa a 5ª posição entre os países onde a prática do cristianismo é mais difícil. O relatório aponta que “cristãos de todas as origens estão presos no caos, sem condições de escapar. Igrejas são bombardeadas, saqueadas e ocupadas pelas partes em conflito”.
Após a queda de Bashir, o governo de transição havia promovido avanços na liberdade religiosa, incluindo a revogação das leis de apostasia e a proibição do uso do termo “infiel” contra minorias religiosas. No entanto, com o golpe de 2021, líderes cristãos passaram a temer o retorno de medidas repressivas inspiradas na sharia.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos retirou o Sudão da lista de Países de Preocupação Particular em 2019 e, em dezembro de 2020, da sua Lista de Observação Especial, após registrar avanços. Atualmente, estima-se que os cristãos representem 2 milhões de pessoas, ou 4,5% da população total de mais de 43 milhões de habitantes, conforme informado pelo Christian Daily.