A Síria anunciou um cessar-fogo imediato em todo o país com as Forças Democráticas Sírias (FDS), lideradas por curdos, encerrando quase duas semanas de confrontos. Cristãos e outras minorias relataram, porém, que o acordo não elimina o temor de perseguição e de instabilidade prolongada após a mudança de governo.
A mídia estatal síria informou que o cessar-fogo integra um acordo de 14 pontos que prevê a incorporação das FDS às estruturas militares e de segurança do país. O presidente Ahmed al-Sharaa declarou que o entendimento permitiria a Damasco retomar o controle das províncias de al-Hasakah, Deir Ezzor e Raqqa, áreas do nordeste e do leste que concentram parte relevante dos recursos de petróleo e gás.
Pelos termos divulgados, as autoridades sírias passariam a controlar instituições civis, passagens de fronteira e instalações de energia que estavam sob administração das FDS. O acordo prevê que integrantes das FDS sejam integrados aos ministérios da Defesa e do Interior após um processo de avaliação. O governo sírio também ficaria responsável por prisões e campos de detenção que abrigam dezenas de milhares de combatentes estrangeiros do Estado Islâmico e familiares.
O texto do acordo reafirma compromissos relacionados a direitos culturais e linguísticos curdos. Entre os pontos citados, está o reconhecimento do curdo como língua oficial e o reconhecimento do Ano Novo Curdo como feriado nacional, em uma medida descrita como inédita desde a independência da Síria, em 1946.
O comandante das FDS, Mazloum Abdi, confirmou o acordo em declarações transmitidas por televisão curda. Ele afirmou que o cessar-fogo buscava evitar uma guerra mais ampla e disse que os combates recentes foram “impostos” às forças sob seu comando. Abdi declarou que informaria comunidades curdas sobre o conteúdo do entendimento após retornar de Damasco. Veículos curdos também registraram que ele citou o compromisso das FDS com a preservação da autonomia curda construída durante a guerra civil, em um período marcado pelo apoio dos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico.
Um refugiado sírio curdo e cristão, que vive na Europa e pediu anonimato por motivos de segurança, disse que o cessar-fogo não reduz, por si só, os riscos percebidos por minorias. “Há muito tempo que tenho medo pelas minorias na Síria — ou, mais precisamente, pelos diferentes segmentos da sociedade síria, incluindo curdos, alauítas, drusos e cristãos”. Ele afirmou ainda: “Ao longo do último ano, testemunhamos o que pode ser descrito como violência genocida contra esses grupos, um após o outro”.
O refugiado citou ataques contra comunidades alauítas no litoral, violência contra drusos no sul, explosões em igrejas em Damasco e, mais recentemente, ataques em áreas curdas. Ele disse que celebrações de aniversário do que as autoridades chamaram de “libertação da Síria” ampliaram receios ao mostrar combatentes armados entoando versículos do Alcorão e fazendo ameaças associadas ao Estado Islâmico.
“Não havia nenhuma mensagem de inclusão ou proteção para as minorias — apenas sonhos de estabelecer um Estado islâmico”, pontuou, acrescentando que vídeos mostravam combatentes alinhados às novas autoridades usando insígnias do Estado Islâmico e cometendo abusos que, segundo ele, lembravam as atrocidades do grupo em 2015, segundo informações do portal The Christian Post.
Ele também apontou preocupação com a transferência do controle de centros de detenção antes administrados pelas FDS. O refugiado afirmou que autoridades passaram a controlar uma prisão em Raqqa que abriga cerca de 5.000 prisioneiros do Estado Islâmico capturados desde 2015, e disse temer libertações e um possível ressurgimento do extremismo. “Tal desenvolvimento colocaria todos os não muçulmanos — e até mesmo muitos muçulmanos — em grave perigo”.
O refugiado criticou o que chamou de leitura simplificada, em parte do debate público europeu, sobre a segurança no país, em meio a discussões sobre retorno de refugiados e a contatos diplomáticos com a nova liderança. “Como curdo e alguém que se converteu recentemente do islamismo ao cristianismo, jamais poderei retornar à Síria”. Ele disse que, mesmo se voltasse, viveria sob risco caso o governo identificasse sua história e suas crenças.
Ele reconheceu sinais que descreveu como cautelosamente positivos no acordo, como promessas de proteção de direitos linguísticos e culturais curdos, mas afirmou que os efeitos ainda não foram demonstrados. “São apenas promessas, e ainda estamos aguardando mudanças reais no terreno”.
A organização Portas Abertas colocou a Síria na 6ª posição da Lista Mundial de Vigilância 2026, divulgada na terça-feira, 14 de janeiro, após o país ter ocupado a 18ª posição no ano anterior. A entidade afirmou que a pontuação de violência subiu de sete para 16,1, em um total possível de 16,7, e disse que o índice geral de perseguição chegou a 90, em meio a assassinatos, ataques a igrejas e fechamentos forçados de instituições cristãs. A Portas Abertas estimou que cerca de 300 mil cristãos permaneçam no país, número menor do que o de uma década atrás, em um quadro que, segundo a entidade, amplia a vulnerabilidade sem proteção estatal confiável.
A entidade missionária afirmou que ao menos 27 cristãos foram mortos por causa da fé no período analisado e citou um atentado suicida em junho de 2025 atribuído a uma célula do Estado Islâmico na Igreja Ortodoxa Grega de Mar Elias, em Damasco, que matou 22 fiéis e feriu dezenas.
O refugiado disse que a saída, no momento, é a oração: “Tudo o que podemos fazer é orar”. Ele concluiu com um apelo por transformação, ao mencionar a história bíblica da mudança de Saulo em Damasco: “Para que, assim como Deus transformou a vida de Saulo em Damasco, Ele também transforme este novo ‘Saulo’ em Damasco hoje”.








































